Nossos objetivos

O objetivo do nosso Blog é compartilhar nossas experiências bem como divulgar a DW para tentar minimizar diagnósticos tardios por falta de informação por parte de alguns profissionais da saúde, o que acarreta graves consequências e sequelas irreversíveis para os portadores da DW. Que possamos estar juntos sem desistir da luta. Creio na força do amor e na superação dos obstáculos impostos pela vida. Juntos somos força, somos amor, somos vida.





segunda-feira, 19 de agosto de 2013

PORTARIA Nº 848, DE 05 DE DEZEMBRO DE 2011. (ATUALMENTE EM VIGOR)

MINISTÉRIO DA SAÚDE

SECRETARIA DE ATENÇÃO À SAÚDE

PORTARIA Nº 848, DE 05 DE DEZEMBRO DE 2011.

O Secretário de Atenção à Saúde, no uso das atribuições,

Considerando a necessidade de se atualizar parâmetros sobre a Doença de Wilson no Brasil e de diretrizes nacionais para  diagnóstico, tratamento e acompanhamento dos indivíduos com esta doença;

Considerando que os Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) são resultado de consenso técnico-científico e  são formulados dentro de rigorosos parâmetros de qualidade e precisão de indicação e posologia;

Considerando as sugestões dadas à Consulta Pública SAS/MS no 9, de 10 de março de 2010;

Considerando a Resolução da Diretoria Colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária - RDC/ANVISA No 28, de 9  de maio de 2008; e  Considerando a avaliação do Departamento de Assistência Farmacêutica - DAF/SCTIE e do Departamento de Atenção  Especializada - DAE/SAS, resolve:

Art. 1º - Aprovar, na forma do Anexo desta Portaria, o PROTOCOLO CLÍNICO E DIRETRIZES TERAPÊUTICAS - DOENÇA DE WILSON.

§ 1º - O Protocolo objeto deste Artigo, que contêm o conceito geral da Doença de Wilson, critérios de diagnóstico, critérios  de inclusão e de exclusão, tratamento e mecanismos de regulação, controle e avaliação, é de caráter nacional e deve ser  utilizado pelas Secretarias de Saúde dos Estados e dos Municípios na regulação do acesso assistencial, autorização,  registro e ressarcimento dos procedimentos correspondentes.
§ 2º - É obrigatória a observância desse Protocolo para fins de dispensação de medicamento nele previsto.
§ 3º - É obrigatória a cientificação do paciente, ou de seu responsável legal, dos potenciais riscos e efeitos colaterais  relacionados ao uso de medicamento preconizado para o tratamento da Doença de Wilson, o que deverá ser formalizado  por meio da assinatura do respectivo Termo de Esclarecimento e Responsabilidade, conforme o modelo integrante do  Protocolo.
§ 4º - Os gestores estaduais e municipais do SUS, conforme a sua competência e pactuações, deverão estruturar a rede  assistencial, definir os serviços referenciais e estabelecer os fluxos para o atendimento dos indivíduos com a doença em todas as etapas descritas no Anexo desta Portaria.

Art. 2º - Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação.

Art. 3º - Fica revogada a Portaria SAS/MS No- 844, de 31 deoutubro de 2002.


HELVÉCIO MIRANDA MAGALHÃES JÚNIOR





ANEXO

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas
Doença de Wilson


1 - METODOLOGIA DE BUSCA DA LITERATURA

Para a análise de eficácia dos tratamentos específicos da doença de Wilson, foram realizadas buscas nas bases Medline/Pubmed e Cochrane e selecionados para avaliação meta-análises, revisões sistemáticas e ensaios clínicos randomizados, controlados e duplocegos publicados até 01/11/2010.

Na base Medline/Pubmed, foi utilizada a estratégia "Hepatolenticular Degeneration" [Mesh] limitada a Humans, Clinical Trial. Das 40 referências encontradas, apenas 1 ensaio clínico foi evidenciado. Na base Cochrane, utilizou-se a expressão Hepatolenticular Degeneration. Meta-análise sobre doença de Wilson não foi encontrada.

Foram consultados ainda o UpToDate, versão 17.3, no site http://www.uptodateonline.com, livros-texto e artigos não  indexados para a elaboração deste Protocolo.

2 - INTRODUÇÃO

A doença de Wilson (DW) é uma doença genética com manifestações clínicas consequentes a um defeito no metabolismo do cobre, o que leva a seu acúmulo. Descrita pela primeira vez por Kinnear Wilson(1) em 1912, caracteriza-se por ter uma herança autossômica recessiva. O gene envolvido é o ATP7B, situado no braço longo do cromossomo 13.  Aproximadamente 1 em 30.000 indivíduos é homozigoto para a doença; os heterozigotos não a desenvolvem, não necessitando, portanto, ser tratados. O gene ATP7B, contido em uma área do DNA de aproximadamente 80 kb, contém 22  éxons transcritos em um RNA mensageiro de aproximadamente 7,8 kb que tem alta expressão no fígado. Existem diversos  tipos de mutações neste gene que podem causar a DW(2).

A absorção de cobre proveniente da dieta excede as quantidades diárias necessárias. Sua excreção pelos hepatócitos na bile é essencial para a manutenção da homeostase deste metal (3). Aparentemente o produto do gene ATP7B está presente no sistema de Golgi e é fundamental para o transporte de cobre através das membranas das organelas intracelulares.  Ausência ou função diminuída do ATP7B reduz a excreção hepática de cobre e causa acúmulo do metal na DW(2).

Ceruloplasmina é uma glicoproteína sintetizada no fígado e contém 6 átomos de cobre por molécula. O defeito no transporte intracelular acarreta diminuição na incorporação de cobre na ceruloplasmina. Acredita-se que a ausência de cobre na ceruloplasmina deixe a molécula menos estável, sendo o motivo pelo qual o nível circulante desta glicoproteína nos pacientes com DW está reduzido(2).

Quando a capacidade de acúmulo de cobre no fígado é excedida ou quando há dano hepatocelular, ocorre liberação de  cobre na circulação, elevando-se o nível de cobre sérico não ligado à ceruloplasmina. Este cobre circulante deposita-se em tecidos extra-hepáticos. Um dos principais locais de deposição é o cérebro, causando dano neuronal e sendo responsável pelas manifestações neurológicas e psiquiátricas da DW (2).

As manifestações clínicas devem-se, principalmente, ao acometimento hepático e do sistema nervoso central (2), sendo  extremamente variáveis (3). Sem tratamento, a doença evolui para insuficiência hepática, doença neuropsiquiátrica, falência hepática e morte.  As manifestações hepáticas podem variar de um quadro assintomático até cirrose descompensada. Alguns casos podem se apresentar como hepatite fulminante (3). As manifestações clínicas do sistema nervoso central podem, em algumas situações, ser a forma de apresentação da doença. Os sinais e sintomas mais frequentes são anormalidades motoras similares às da doença de Parkinson, incluindo distonia, hipertonia, rigidez, tremores e disartria. Até 20% dos pacientes podem ter sintomas exclusivamente psiquiátricos, muito variáveis, incluindo depressão, fobias, comportamento compulsivo, agressivo ou antissocial (3). A DW também pode causar dano renal (nefrocalcinose, hematúria, aminoacidúria), hemólise, hipoparatireoidismo, artrite, artralgias, osteoartrose, miocardiopatias e arritmias.

O tratamento medicamentoso e transplante hepático são as opções terapêuticas. Também deve ser adotada dieta com baixa quantidade de cobre, principalmente nas fases iniciais da doença. Os alimentos com quantidade mais elevada de cobre são frutos do mar, chocolate, amêndoas, café, feijão, fígado, cogumelos e soja (3). Contudo, a dieta isoladamente não é suficiente para o tratamento.

O transplante deve ser reservado para pacientes com doença hepática terminal ou fulminante (2,3).

O tratamento medicamentoso é baseado na administração de quelantes e sais de zinco (4). Os quelantes são penicilamina(5), dimercaprol (british anti-Lewisite - BAL), trientina (6,7) e tetratiomolibdato. Agem removendo e destoxificando o cobre intra e extracelular. BAL não é usado por ter inúmeros efeitos adversos; tetratiomolibdato não está registrado no Brasil. Um terço dos pacientes em uso de penicilamina desenvolve efeitos adversos que justificam substituí-la por trientina (8,9). Os sais de zinco diminuem a absorção intestinal de cobre (10).

Normalmente o tratamento é iniciado com os quelantes, associados ou não aos sais de zinco, para a remoção do excesso de cobre depositado. Alguns autores recomendam que, após a remoção deste excesso pelos quelantes, os sais de zinco poderiam ser utilizados em monoterapia para prevenir o reacúmulo do metal (11). Contudo, esta conduta não é uniforme, pois há relatos na literatura de casos de piora neurológica e de descompensação hepática progressiva refratária à reinstituição do tratamento causadas pela interrupção dos quelantes (5).

3 - DIAGNÓSTICO

A DW deve ser especialmente considerada em pacientes jovens com sintomas extrapiramidais, nos com doença psiquiátrica atípica e naqueles com hemólise inexplicada ou com manifestação de doença hepática sem outra causa aparente (2). O diagnóstico é feito pela soma dos achados clínicos e laboratoriais. São indicativos da doença, entre outros, a presença de anéis de Kayser-Fleisher na córnea, níveis de ceruloplasmina sérica baixos, concentração hepática de cobre elevada (acima de 250 mcg/g de tecido hepático seco) e excreção urinária de cobre elevada (cobre urinário basal de 24 horas acima de 100 mcg) (2,12).

4 - CLASSIFICAÇÃO ESTATÍSTICA INTERNACIONAL DE DOENÇAS E PROBLEMAS RELACIONADOS À SAÚDE (CID 10)

- E83.0 Distúrbios do metabolismo do cobre

5 - CRITÉRIOS DE INCLUSÃO

Serão incluídos neste Protocolo os pacientes com características que perfaçam quatro ou mais pontos da seguinte tabela:

TABELA 1 – Escore para Diagnóstico de Doença de Wilson

SINTOMAS E SINAIS
PONTOS
Anel de Kayser-Fleisher (exame por lâmpada de fenda)
Presente
Ausente



2
0
Sintomas neuropsiquiátricos sugestivos (ou ressonância magnética cerebral típica)
Presente
Ausente



2
0

Anemia hemolítica - teste de Coombs negativo
Presente
Ausente

1
0

TESTES LABORATORIAIS
Cobre urinário (na ausência de hepatite aguda)
Normal
1-2x o limite superior da normalidade (LSN)
Mais de 2x LSN
Normal, mas mais de 5x LSN após estímulo com 2 x 0,5 g de D-penicilamina


0
1
2

2
Cobre hepático quantitativo
Normal
Até 5x LSN
Mais de 5x LSN

-1
1
2

Rodanina positiva nos hepatócitos (quando o cobre quantitativo não for disponível)
Ausente
Presente


0
1

Ceruloplasmina sérica (por nefelometria, normal > 20 mg/dl)
Normal
10-20
Menor de 10



0
1
2
ANÁLISE DE MUTAÇÕES
Doença causada por mutações em ambos os cromossomos
Doença causada por mutação em um cromossomo
Nenhuma mutaçãodetectada causadora de doença


4
1
0




















































6 - CRITÉRIOS DE EXCLUSÃO

Serão excluídos os pacientes que apresentarem contraindicação ou hipersensibilidade respectivamente a medicamento preconizado neste Protocolo.

7 - CASOS ESPECIAIS

O uso de quelantes em gestantes deve contemplar a relação risco-benefício, pois a interrupção do tratamento durante a gestação pode ter efeitos deletérios na saúde materna(8). A penicilamina foi teratogênica em ratas quando usada em doses 06 vezes superiores às maiores doses recomendadas para uso humano. Caso se opte por seu uso, as doses não devem ir além de 1 g/dia, sugerindo-se não ultrapassar 500 mg/dia durante o segundo e os dois primeiros meses do terceiro trimestre(2). Devem ser utilizados 250 mg/dia nas últimas 6 semanas de gestação. Em casos de parto cesáreo, deve-se manter a dose até a cicatrização completa da ferida operatória(2).

Em razão dos efeitos teratogênicos dos quelantes, alguns autores (14) têm sugerido o uso de zinco durante a gestação; outros sugerem a manutenção dos quelantes nas doses preconizadas abaixo, pelo risco do desencadeamento de anemia hemolítica ou de insuficiência hepática aguda com a interrupção do tratamento. Em razão disso, fica a critério médico optar pelo medicamento que considere menos arriscado para o caso.

8 - TRATAMENTO

O tratamento de escolha da DW é o medicamentoso, que deve se manter até quando dele o doente se beneficie. O transplante hepático, que tem a vantagem de corrigir o defeito metabólico subjacente, deve ser reservado como terapia alternativa em casos graves, terminal ou fulminante, ou refratários. Pode ser realizado com quelantes que promovem a excreção renal de cobre depositado em excesso nos tecidos e com medicamentos que diminuem a absorção intestinal de cobre. A escolha entre eles depende de manifestações clínicas, laboratoriais ou histológicas de atividade da doença. Se presentes, o tratamento com quelantes deve ser priorizado; se ausentes, o tratamento visando à diminuição da absorção de cobre pode ser suficiente. Pacientes com DW também devem ser orientados a manter uma dieta com baixas quantidades de cobre e, quando utilizada a penicilamina, recomenda-se a utilização simultânea de 25 mg/dia de piridoxina a fim de evitar a deficiência desta vitamina.

TRATAMENTO COM QUELANTES

Penicilamina e trientina são os quelantes disponíveis para o tratamento da DW(2,3,8) por sua comprovada eficácia. As manifestações neurológicas de alguns pacientes podem piorar após o início da administração de penicilamina devido à realocação dos depósitos de cobre, podendo haver recuperação da piora inicial com a continuidade do uso (3,9). Até 30% dos pacientes em uso de penicilamina desenvolvem efeitos adversos que impedem a manutenção do tratamento com o medicamento. Desta forma, sugere-se priorizar a trientina.

TRATAMENTO COM MEDICAMENTOS QUE DIMINUEM A ABSORÇÃO INTESTINAL

O acetato de zinco age induzindo a produção de metalotioneína, um quelante de metais com maior afinidade com o cobre do que com o zinco. Após quelado, o cobre presente no tubo digestivo não pode ser absorvido e é eliminado pelas fezes. Como há secreção salivar e gástrica de cobre, pode ocorrer balanço negativo de cobre também com este tratamento. Tem sido utilizado como terapia de manutenção em casos diagnosticados por rastreamento em uma fase subclínica para evitar o reacúmulo de cobre nos que já responderam à penicilamina ou para potencializar os quelantes em pacientes sem adequada resposta terapêutica, principalmente em casos neuropsiquiátricos. Também pode ser uma opção para os intolerantes à penicilamina. Em uma série de casos com 17 pacientes tratados com acetato de zinco e com seguimento médio de 14 anos, os com  manifestações exclusivamente neurológicas mostraram melhor resposta ao tratamento apenas com acetato de zinco em comparação aos com manifestações hepáticas, especialmente moderadas ou graves. Desta forma, a terapia inicial com acetato de zinco pode ser considerada para pacientes apenas com manifestações neurológicas ou manifestações hepáticas leves(11). Inexiste apresentação comercial disponível do acetato de zinco, podendo ser ele produzido em farmácias de manipulação.

8.1 - FÁRMACOS

- Penicilamina: cápsulas de 250 mg.
- Trientina: cápsulas de 250 mg.
- Piridoxina: comprimidos de 50 mg ou solução oral de 1 mg/ml e 10 mg/ml.

8.2 - ESQUEMAS DE ADMINISTRAÇÃO

- Penicilamina - deve-se iniciar com 250 mg/dia, aumentando-se a dose em 250 mg/dia semanalmente (8) até 1.000 a 1.500 mg/dia,dividida em 2 a 4 administrações diárias (3) sempre em jejum (1 hora antes ou 2 horas após as refeições).
A dose pediátrica é de 20 mg/kg/dia, igualmente fracionada.
Na fase de manutenção, usualmente 4 a 6 meses após o início do tratamento, a dose pode ser reduzida para 750 a 1.000 mg/dia, dividida em duas administrações.

- Piridoxina - 25 mg/dia concomitantemente à penicilamina.

- Trientina - deve-se iniciar com dose de 500 a 700 mg/dia para crianças e de 750 a 1.000 mg/dia para adultos, em 3 a 4 doses diárias (250 mg de 6 em 6 horas ou de 8 em 8 horas). As doses máximas permitidas são de 1.500 mg/dia para crianças e de 2.000 mg/dia para adultos. O medicamento deve ser sempre tomado em jejum.

- Acetato de zinco - deve-se iniciar com dose de 170 mg (50 mg de zinco elementar) a cada 8 horas. Preferencialmente, deve ser usado pelo menos 1 hora antes ou 1 hora após as refeições, o que, em alguns casos, ocasiona sintomas dispépticos. Nestas situações, sugere-se que o medicamento seja tomado junto às refeições, mas deve-se titular a necessidade de aumento de dose pela medida do cobre sérico livre (3).

8.3 - TEMPO DE TRATAMENTO - CRITÉRIOS DE INTERRUPÇÃO

O tratamento da DW deve ser contínuo e ininterrupto. O principal fator para o sucesso terapêutico é a adesão adequada ao esquema medicamentoso proposto(2). Alguns pacientes desenvolvem reação febril, com rash cutâneo e proteinúria nos primeiros 7 a 10 dias de tratamento com penicilamina, estando, nesta eventualidade, indicada a sua interrupção. Em alguns casos, é possível retomar a penicilamina com doses menores associadas a corticosteroide. Não havendo melhora, pode ser necessária a troca para acetato de zinco. Ao longo do tratamento com penicilamina também podem ocorrer proteinúria, leucopenia, trombocitopenia, anemia aplásica, síndrome nefrótica, síndrome de Goodpasture, síndrome miastênica, síndrome semelhante ao lúpus eritematoso sistêmico, reações alérgicas com febre, artralgias e linfadenopatia generalizada. Em todas estas situações, a penicilamina deve ser substituída por um medicamento alternativo(3), trientina ou acetato de zinco, conforme o caso.

Os pacientes que, após o início do uso de quelantes, estiverem com cobre urinário de 24 horas abaixo de 500 mcg/dl associado a cobre sérico livre abaixo de 10 mcg/dl, podem ter a dose de quelante reduzida ou substituída por doses de manutenção de acetato de zinco, sendo mantida a monitorização com cobre sérico livre para certificação da adesão à prescrição do medicamento e da dieta. Com a interrupção dos quelantes, pode haver casos de piora neurológica e também de descompensação hepática progressiva refratária à reinstituição do tratamento.

8.4 - BENEFÍCIOS ESPERADOS

Os benefícios esperados com o tratamento são aumento da expectativa de vida e diminuição da sintomatologia, com melhora da qualidade de vida.

9 - MONITORIZAÇÃO

O benefício do tratamento pode ser monitorizado pela avaliação da melhora dos sinais e sintomas clínicos e da adequada excreção de cobre urinário e redução de cobre sérico livre (não ligado à ceruloplasmina).

A dosagem de cobre urinário de 24 horas deve ser avaliada ao final do primeiro mês. São esperados valores acima de 2.000 mcg/dia para se considerar adequada a excreção urinária de cobre. Este valor começa a diminuir em aproximadamente 3 meses de uso do medicamento, após os quais a medida de cobre sérico livre passa a ser a principal medida da adesão ao tratamento. Com o uso adequado do medicamento, o cobre sérico livre deve ser menor do que 10 mcg/dl. Após o correto ajuste da dose, a monitorização pelo cobre sérico livre deve ser feita a cada 6 a 12 meses.

Não há indicação de repetição de biópsia hepática para monitorização do tratamento.

Devido aos potenciais efeitos adversos hematológicos e renais envolvendo o uso de penicilamina, recomenda-se, a critério médico, exame físico (incluindo exame da pele, linfonodos e temperatura corporal), exame qualitativo de urina, dosagem sérica de creatinina e hemograma completo com plaquetometria a cada semana no primeiro mês, a cada 14 dias nos primeiros 5 meses de tratamento e, após, mensalmente (9). A avaliação da função hepática (aminotransferases/ transaminases - AST/TGO e ALT/TGP, bilirrubinas e fosfatase alcalina) deve ser realizada a cada 6 meses enquanto o paciente estiver em uso do medicamento.

A penicilamina deve ser interrompida se houver proteinúria acima de 1 g/dia, redução da depuração da creatinina endógena ou cilindros com hemácias ou leucócitos ao exame qualitativo de urina. É objeto de debate a suspensão da penicilamina com níveis menores de proteinúria, mas alguns autores preconizam sua suspensão a partir do momento em que 02 cruzes de proteína sejam encontradas ao exame qualitativo de urina.(15)

O uso de trientina pode causar anemia ferropriva pela ação quelante sobre o ferro da dieta. Pacientes em risco ou em uso prolongado devem ser monitorizados quanto à presença de deficiência de ferro.


10 - REGULAÇÃO/CONTROLE/AVALIAÇÃO PELO GESTOR

Recomenda-se que os pacientes sejam atendidos em serviços que contem com especialistas em Gastroenterologia e Neurologia.
Devem ser observados os critérios de inclusão e exclusão de pacientes neste Protocolo, a duração e a monitorização do tratamento, bem como a verificação periódica das doses prescritas e dispensadas e a adequação de uso dos medicamentos.

11 - TERMO DE ESCLARECIMENTO E RESPONSABILIDADE – TER

É obrigatória a informação ao paciente ou a seu responsável legal dos potenciais riscos, benefícios e efeitos adversos relacionados ao uso dos medicamentos preconizados neste protocolo. O TER (Modelo Abaixo) é obrigatório ao se prescrever medicamento do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica.


(MODELO)


TERMO DE ESCLARECIMENTO E RESPONSABILIDADE PENICILAMINA E TRIETINA


Eu, ________________________(nome do(a) paciente), declaro ter sido informado(a) claramente sobre benefícios, riscos, contraindicações e principais efeitos adversos relacionados ao uso de penicilamina e trientina indicadas para o tratamento da doença de Wilson.

Os termos médicos foram explicados e todas as dúvidas foram resolvidas pelo médico ____________________ (nome do médico que prescreve).

Assim, declaro que fui claramente informado(a) de que o medicamento que passo a receber pode trazer as seguintes melhoras:

- aumento da expectativa de vida;
- diminuição da sintomatologia com melhora da qualidade de vida.

Fui também claramente informado(a) a respeito das seguintes contraindicações, potenciais efeitos adversos e riscos do uso dos medicamentos:

- há evidências de riscos ao feto com o uso da penicilamina; portanto, caso engravide, devo avisar imediatamente o médico, sem interromper o tratamento;

- não se sabe ao certo os riscos ao feto com o uso da trientina; portanto, caso engravide, devo avisar imediatamente o médico, sem interromper o tratamento;

- efeitos adversos da penicilamina - principais: reações alérgicas (coceira, vermelhidão na pele), náuseas, vômitos, diarreia, dor no estômago, diminuição ou perda do paladar, diminuição das células brancas e vermelhas do sangue (que devem ser muito controladas), fraqueza nos músculos, zumbidos, agitação, ansiedade, queda de cabelo, visão borrada; mais raros: inflamação do pâncreas, inflamação dos pulmões, síndromes miastênicas (dificuldade para respirar, falar, mastigar, engolir, visão dupla e fraqueza nos músculos) e síndromes lúpicas (bolhas na pele, dor no peito e dor nas juntas), proteinúria e síndrome nefrótica;

- efeitos adversos da trientina - principais: cansaço, fraqueza, dor no estômago, azia, alterações na pele, cãibras, deficiência de ferro; casos mais graves incluem lúpus eritematoso sistêmico e distonias;

- contraindicado em casos de hipersensibilidade (alergia) ao fármaco ou a componentes da formulação;

- o risco da ocorrência de efeitos adversos aumenta com a superdosagem.

Estou ciente de que este medicamento somente pode ser utilizado por mim, comprometendo-me a devolvê-lo caso não queira ou não possa utilizá-lo ou se o tratamento for interrompido. Sei também que continuarei a ser atendido(a), inclusive em caso de desistir de usar o medicamento.


Autorizo o Ministério da Saúde e as Secretarias de Saúde a fazerem uso de informações relativas ao meu tratamento, desde que assegurado o anonimato.

( ) Sim ( ) Não

Meu tratamento constará do seguinte medicamento:

( ) penicilamina
( ) trientina


Local:                                                           Data:
Nome do paciente:
Cartão Nacional de Saúde:
Nome do responsável legal:

Documento de identificação do responsável legal:


_____________________________________
Assinatura do paciente ou do responsável legal
Médico responsável:
CRM:
UF:


__________________________
Assinatura e carimbo do médico
Data:____________________


OBSERVAÇÃO: Este Termo é obrigatório ao se solicitar o fornecimento de medicamento do Componente Especializado de Assistência Farmacêutica (CEAF) e deverá ser preenchido em duas vias: uma será arquivada na farmácia, e a outra, entregue ao usuário ou a seu responsável legal.

12 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1 - Wilson SAK. Progressive lenticular degeneration: a familial nervous disease associated with cirrhosis of the liver. Brain 1912;34:295.

2 - Roberts EA, Schilsky ML. AASLD PRACTICE GUIDELINES - Diagnosis and Treatment of Wilson Disease: An Update. Hepatology 2008;47(6):2089-2111.

3 - Cox DW, Roberts EA. Wilson´s Disease. In: Feldman M, Scharschmidt BF, Sleisenger MH. Sleisenger & Fordtrans´s Gastrointestinal and Liver Disease. 6ª ed. Philadelphia: WB Saunders Company; 1998. pp.1104-1112.

4 - Anderson LA, Hakojarvi SL, Boudreaux SK. Zinc acetate treatment in Wilson's disease. Ann Pharmacother 1998;32(1):78-87

5 - Czlonkowska A, Gajda J, Rodo M. Effects of long-term treatment in Wilson's disease with D-penicillamine and zinc sulphate. J Neurol 1996;243(3):269-73.

6 - Walshe JM. Treatment of Wilson's disease with trientine (triethylene tetramine) dihydrochloride. Lancet 1982;1(8273):643-7.

7. Dubois RS, Rodgerson DO, Hambidge KM. Treatment of Wilson's disease with triethylene tetramine hydrochloride (Trientine). J Pediatr Gastroenterol Nutr 1990;10(1):77-81
8 - Lacy C, Armstrong L, Goldman M, Lance L. Drug Information Handbook. 18ª ed. Lexi-Comp Inc. 2009. pp.1247-1249.

9 - Brewer GJ, Terry CA, Aisen AM et al. Worsening of neurological symptoms in patients with Wilson´s disease with initial penicilamina therapy. Arch Neurol 1987;44:490.

10 - Sturniolo GC, Mestriner C, Irato P, Albergoni V, Longo G, D'Inca R. Zinc therapy increases duodenal concentrations of metallothionein and iron in Wilson's disease patients. Am J Gastroenterol 1999;94(2):334-8.

11- Linn FH, Houwen RH, van Hattum J, van der Kleij S, van Erpecum KJ. Long-term exclusive zinc monotherapy in symptomatic Wilson disease: experience in 17 patients. Hepatology. 2009 Nov;50(5):1442-52

12 - Martins Costa C, Baldwin D, Portmann B, Lolin Y, Mowat AP, Mieli-Vergani G. Value of urinary copper excretion after penicillamine challenge in the diagnosis of Wilson´s disease. Hepatology 1992;15:609-615.

13 - Ferenci P, Caca K, Loudianos G, Mieli-Vergani G, Tanner S, Sternlieb I, Schilsky M, Cox D, Berr F. Diagnosis and phenotypic classification of Wilson disease. Liver Int 2003;23:139-142.

14 - Brewer GJ, Johnson VD, Dick RD et al. Treatment of Wilson´s disease with zinc. XVII: Treatment during pregnancy. Hepatology 2000;31:364.


15 - Kaplan, MM. Treatment of Wilson Disease. In: Up-ToDate, Basow, DS (Ed), UpToDate, Waltham, MA, 2010. 

domingo, 18 de agosto de 2013

PORTARIA SAS/MS nº 844, de 31 DE OUTUBRO DE 2002. (REVOGADA PELA PORTARIA Nº 848, DE 5 DE DEZEMBRO DE 2011, ACIMA)



























PROTOCOLO CLÍNICO E DIRETRIZES TERAPÊUTICAS

DOENÇA DE WILSON
Penicilamina, Trientina e Acetato de Zinco.
Portaria SAS/MS nº 844, de 31 de outubro de 2002.

Equipe Técnica: Guilherme Becker Sander, Paulo D. Picon e Karine Medeiros Amaral

Consultor: Angelo Alves de Mattos

Editores: Paulo Dornelles Picon e Alberto Beltrame

1. INTRODUÇÃO

A doença de Wilson (DW) é uma doença genética que produz um defeito no metabolismo do cobre. Foi descrita pela primeira vez por Kinnear Wilson2 em 1912. Caracteriza-se por ter uma herança autossômica recessiva, sendo o gene envolvido o ATP7B, situado no braço longo do cromossoma 13. Aproximadamente 1 em 30.000 indivíduos são homozigotos para essa doença, sendo que os heterozigotos não a desenvolvem e não precisam ser tratados. O gene ATP7B está contido em uma área do DNA de aproximadamente 80 kb,
contém 22 éxons transcritos em um RNA mensageiro de aproximadamente 7,8 kb que tem alta expressão no fígado. Diversos tipos de mutações nesse gene podem causar a DW. A absorção de cobre proveniente da dieta excede as quantidades diárias necessárias. Sua excreção pelos hepatócitos na bile é essencial para a manutenção da homeostase deste metal. Aparentemente o produto do gene ATP7B está presente no aparato de Golgi e é fundamental para o transporte do cobre através das membranas das organelas intracelulares. A ausência ou função diminuída do ATP7B reduz a excreção hepática de cobre e causa o acúmulo deste metal na DW.

A ceruloplasmina é uma glicoproteína sintetizada no fígado que contém 6 átomos de cobre por molécula. O defeito no transporte intra-celular de cobre leva a uma diminuição na incorporação de cobre na ceruloplasmina. Acredita-se que a ausência de cobre na ceruloplasmina deixe a molécula menos estável, sendo o motivo pelo qual o nível circulante de ceruloplasmina nos pacientes com doença de Wilson está diminuído. Quando a capacidade de acúmulo de cobre no fígado é excedida ou quando há dano hepatocelular, há a liberação de cobre na circulação e o nível de cobre sérico não ligado à ceruloplasmina torna-se elevado. O cobre circulante deposita-se em tecidos extrahepáticos, e um dos principais locais para a sua deposição é o cérebro, causando dano neuronal e sendo responsável pelas manifestações neurológicas e psiquiátricas da DW.

As manifestações clínicas da DW devem-se, principalmente, ao acometimento hepático e do sistema nervoso central, sendo extremamente variáveis. Sem tratamento, a doença evolui para insuficiência hepática, doença neuropsiquiátrica, falência hepática e morte. As manifestações hepáticas podem variar de um quadro assintomático até casos com cirrose descompensada. Alguns indivíduos podem se apresentar com hepatite fulminante.

As manifestações clínicas do sistema nervoso central podem, em alguns casos, ser a forma de apresentação da doença. Os sinais e sintomas mais freqüentes são anormalidades motoras similares às da doença de Parkinson, incluindo distonia, hipertonia, rigidez, tremores e disartria. Em até 20% dos casos, os pacientes podem ter sintomas exclusivamente psiquiátricos, sendo estes muito variáveis e incluindo depressão, fobias, comportamento compulsivo, agressivo ou anti-social. A DW também pode causar dano renal (nefrocalcinose, hematúria, aminoacidúria), hemólise, hipoparatireoidismo, artrite, artralgias, osteoartrose, cardiomiopatia e arritmias.

A DW deve ser especialmente considerada em pacientes jovens com sintomas extrapiramidais, em pacientes com doença psiquiátrica atípica e naqueles com hemólise inexplicada ou manifestações de doença hepática sem outra causa aparente. O diagnóstico é feito pela soma dos achados clínicos e laboratoriais. São indicativos da doença, além dos sinais e sintomas expostos acima, a presença de anéis de Kayser-Fleisher na córnea, ceruloplasmina sérica baixa, concentração hepática de cobre elevada e excreção urinária de cobre elevada.

As opções para o tratamento são farmacológicas e o transplante hepático. Também se deve seguir dieta com baixa quantidade de cobre, principalmente nas fases iniciais da doença. Os alimentos com quantidade mais elevada de cobre são os frutos do mar, chocolate, amêndoas, café, feijão, fígado, cogumelos e soja. Contudo, a dieta isoladamente nunca é suficiente para o tratamento. 

O transplante deve ser reservado para pacientes com doença hepática terminal ou fulminante. O tratamento farmacológico é baseado em quelantes e sais de zinco. Os quelantes são a penicilamina, a trientina e o tetratiomolibdato, que agem removendo e detoxificando o cobre intra e extracelular, sendo que a maior experiência de uso é com a penicilamina. O tetratiomolibdato ainda não foi incorporado à prática clínica. Os sais de zinco agem diminuindo a absorção intestinal de cobre. Normalmente o tratamento é iniciado com os quelantes que são usados, associados ou não aos sais de zinco, na remoção do excesso de cobre depositado. Alguns autores recomendam que, após a remoção pelos quelantes do excesso de cobre depositado, os sais de zinco poderiam ser utilizados em monoterapia para prevenir o reacúmulo de cobre. Contudo essa conduta não é uniforme, pois existem relatos na literatura de casos de piora neurológica e também de descompensação hepática progressiva refratária à reinstituição do tratamento causadas pela interrupção dos quelantes.

2. CLASSIFICAÇÃO CID 10

E83.0 Distúrbios do Metabolismo do Cobre

3. CRITÉRIOS DE INCLUSÃO

Serão incluídos pacientes enquadrados em um dos seguintes casos:

a) presença de pelo menos 2 dos seguintes critérios: (1) Presença de anéis de Kayser-Fleischer em exame de lâmpada de fenda realizado por oftalmologista; (2) concentração sérica de ceruloplasmina reduzida; (3) cobre sérico livre acima de 25 μg/dl (calculado da seguinte forma: cobre sérico total - (ceruloplasmina em mg/dl x 3,15));

b) cobre urinário basal de 24 h acima de 100 μg associado a ceruloplasmina reduzida;

c) concentração hepática de cobre acima de 250 μg por grama de tecido hepático seco.

4. CRITÉRIOS DE EXCLUSÃO

Não deverão ser incluídos pacientes que:

a) tiverem contra-indicação ao uso das medicações propostas neste Protocolo;
b) não concordarem com os termos do Consentimento Informado.

5. SITUAÇÕES ESPECIAIS

5.1. Pacientes gestantes

A penicilamina foi teratogênica em ratas quando usada em doses seis vezes superiores às maiores doses recomendadas para uso humano, enquanto a trientina foi teratogênica em ratas com doses similares às usadas em humanos. O emprego de quelantes em mulheres gestantes deve contemplar a relação riscobenefício, pois a parada do tratamento durante a gestação pode ter efeitos deletérios na saúde materna.

Caso se opte pelo seu uso, as doses não devem ir além de 1g por dia, sugerindo-se não ultrapassar a dose de 500 mg/dia durante o segundo trimestre e os dois primeiros meses do terceiro trimestre. Deve-se utilizar 250 mg/dia nas últimas seis semanas de gestação, sendo que nos casos em que o parto foi cesáreo devese manter esta dose até a cicatrização da ferida operatória. Mulheres em uso de penicilamina não devem amamentar. Não se sabe se a trientina é excretada no leite materno, recomendando-se cautela na
administração deste medicamento para mulheres durante a amamentação.

Por causa dos efeitos teratogênicos dos quelantes, alguns autores têm sugerido o uso de zinco durante a gestação, sendo que outros sugerem a manutenção dos quelantes nas doses preconizadas acima pelo risco do desencadeamento de anemia hemolítica ou de insuficiência hepática aguda com a interrupção do tratamento.

6. TRATAMENTO

6.1. Fármacos

6.1.1. Primeira linha

A penicilamina é considerada o quelante de primeira escolha para a DW. Até 30% dos pacientes desenvolvem efeito adverso sério com o uso desse medicamento, o que requer a sua substituição por um quelante alternativo. As manifestações neurológicas de alguns pacientes tendem piorar após o início da penicilamina devido à realocação dos depósitos de cobre, podendo haver recuperação dessa piora inicial com o uso continuado.

6.1.2. Segunda linha

A trientina é considerada o agente de escolha para ser usado por pacientes que não tolerarem o uso de penicilamina. Esse medicamento parece ter uma ação quelante menor do que a penicilamina, mas tem um menor número de efeitos adversos. Seu uso continuado pode causar anemia ferropriva, pela ação quelante sobre o ferro da dieta.

6.1.3. Terceira linha

O acetato de zinco tem sido utilizado como terapia de manutenção para evitar o reacúmulo de cobre em pacientes que já responderam à penicilamina ou para potencializar os quelantes em casos sem adequada resposta ao tratamento, principalmente neuropsiquiátricos. Também pode ser uma opção para pacientes intolerantes tanto à penicilamina quanto à trientina ou nos diagnosticados por rastreamento e que nunca tiveram sinais e sintomas da doença.

Observação: Não existe apresentação comercial disponível do medicamento acetato de zinco; ele pode ser produzido em farmácias de manipulação.

6.2. Esquemas de Administração

6.2.1. Penicilamina

Inicia-se com 250 mg/dia, aumentando-se a dose em 250 mg/dia semanalmente até se atingir 1.000 a 1.500 mg/dia divididas em 3 a 4 doses diárias. A penicilamina deve ser sempre administrada em jejum (uma hora antes ou duas horas depois das refeições).

A dose pediátrica é de 20 mg/kg/dia igualmente fracionados. Recomenda-se a utilização simultânea de piridoxina 25 mg por dia a fim de evitar a deficiência dessa vitamina.

6.2.2. Trientina

Inicia-se com 500-750 mg por dia para crianças e 750-1000 mg para adultos divididos em 3 a 4 doses diárias (250 mg de 6 em 6 h ou de 8 em 8 h). O medicamento deve ser sempre tomado em jejum (uma hora antes ou duas horas depois das refeições), sendo que a cápsula não pode ser partida, aberta ou mastigada, mas tomada inteira.

As doses máximas permitidas são de 1.500 mg por dia para crianças e de 2.000 mg por dia para adultos. O medicamento deve sempre ser mantido sobre refrigeração.

6.2.3. Acetato de zinco

Iniciar com 50 mg de zinco elementar de 8 em 8 h. Preferencialmente deve ser usado pelo menos uma hora antes ou uma hora depois das refeições, o que pode, por vezes, ocasionar sintomas dispépticos. Nesses casos, sugere-se que a dose de zinco seja tomada junto às refeições, mas devendo-se titular a necessidade de aumento de dose através da medida do cobre sérico livre.

6.3. Tempo e Critérios de Interrupção do Tratamento

O tratamento da DW deve ser contínuo e ininterrupto. O principal fator do qual dependerá o sucesso do tratamento é a adesão adequada do paciente ao esquema farmacológico proposto. Alguns desenvolvem uma reação febril, com rash cutâneo e proteinúria, nos primeiros 7 a 10 dias de tratamento com penicilamina, sendo indicada sua interrupção. Embora seja possível a retomada do tratamento com penicilamina, usando-se doses menores associadas a corticóide, a troca para trientina parece ser mais segura. 

Ao longo do tratamento com penicilamina também podem ocorrer proteinúria, leucopenia, trombocitopenia, anemia aplásica, síndrome nefrótica, síndrome de Goodpasture, síndrome miastênica, síndrome semelhante ao lúpus eritematoso sistêmico e reações alérgicas com febre, artralgias e linfadenopatia generalizada. Em todas essas situações a penicilamina deve ser substituída por um dos medicamentos alternativos propostos.

Os pacientes que após o início de quelantes estiverem com cobre urinário de 24 h abaixo de 500 μg associado a um cobre livre sérico abaixo de 10 μg/dl, podem ter a dose de quelante reduzida ou substituída por doses de manutenção de acetato de zinco, sendo mantida a monitorização com cobre sérico livre para certificação da adesão à prescrição do medicamento e da dieta. Com a interrupção dos quelantes, pode haver piora neurológica e descompensação hepática progressiva refratária à reinstituição do tratamento.

7. MONITORIZAÇÃO

O benefício do tratamento pode ser monitorado através da melhora dos sinais e sintomas clínicos e da adequada excreção de cobre urinário e redução no cobre sérico livre (não ligado à ceruloplasmina).

A dosagem do cobre urinário de 24 horas dever ser avaliada ao final do primeiro mês, esperando-se encontrar valores superiores a 2.000 μg por dia para se considerar uma excreção urinária de cobre adequada.

Este valor começa a diminuir em aproximadamente 3 meses de uso do medicamento, após os quais a medida do cobre sérico livre passa a ser a principal medida da adesão ao tratamento. Espera-se que, com o uso adequado da medicação, o cobre sérico livre fique abaixo de 10 μg/dl10. Após o correto ajuste da dose, a monitorização através do cobre sérico livre deve ser feita a cada 6 a 12 meses.

Não há indicação de repetição de biópsia hepática para monitorização do tratamento. Devido aos potenciais efeitos adversos hematológicos e renais sérios envolvendo o uso de penicilamina, recomendam-se exame qualitativo de urina e hemograma completo com plaquetas a cada duas semanas nos primeiros seis meses de tratamento e, após, mensalmente. 

Testes de função hepática devem ser realizados a cada seis meses enquanto o paciente estiver em uso do medicamento.

8. BENEFÍCIOS ESPERADOS

Os benefícios esperados com o tratamento da DW são aumento da expectativa de vida e diminuição da sintomatologia com melhora na qualidade de vida.

9. CONSENTIMENTO INFORMADO

É obrigatória a cientificação do paciente, ou de seu responsável legal, dos potenciais riscos e efeitos colaterais relacionados ao uso dos medicamentos preconizados neste Protocolo, o que deverá ser formalizado por meio da assinatura de Termo de Consentimento Informado.

10. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Schilsky ML, Tavill AS. Wilson´s Disease. In: Schiff ER, Sorrel MF, Maddrey WC. Schiff´s Disease of the Liver. 8ª ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins;1998. pp. 1091-1106.

2. Wilson SAK. Progressive lenticular degeneration: a familial nervous disease associated with cirrhosis of the liver. Brain 1912;34:295.

3. Cox DW, Roberts EA. Wilson´s Disease. In: Feldman M, Scharschmidt BF, Sleisenger MH. Sleisenger & Fordtrans´s Gastrointestinal and Liver Disease. 6ª ed. Philadelphia: WB Saunders Company;1998. pp.1104-12.

4. Martins Costa C, Baldwin D, Portmann B, Lolin Y, Mowat AP, Mieli-Vergani G. Value of urinary copper excretion after penicillamine challenge in the diagnosis of Wilson´s disease. Hepatology 1992;15:609-15.

5. Anderson LA, Hakojarvi SL, Boudreaux SK. Zinc acetate treatment in Wilson’s disease. Ann Pharmacother 1998;32:78-87

6. Czlonkowska A, Gajda J, Rodo M. Effects of long-term treatment in Wilson’s disease with D-penicillamine and zinc sulphate. J Neurol 1996;243:269-73.

7. Walshe JM. Treatment of Wilson’s disease with trientine (triethylene tetramine) dihydrochloride. Lancet 1982;1:643-7.

8. Dubois RS, Rodgerson DO, Hambidge KM. Treatment of Wilson’s disease with triethylene tetramine hydrochloride (Trientine). J Pediatr Gastroenterol Nutr 1990;10:77-81
9. Sturniolo GC, Mestriner C, Irato P, Albergoni V, Longo G, D’Inca R. Zinc therapy increases duodenal concentrations of metallothionein and iron in Wilson’s disease patients. Am J Gastroenterol 1999;94:334-8.

10. PDR – Physician´s Desk Reference. 55ª ed. Montvale, NJ: Medical Economics Co.,2001. pp1909-12.

11. Brewer GJ, Johnson VD, Dick RD, Johnson VD, Fink JK, Kluin KJ, et al. Treatment of Wilson´s disease with zinc. XVII: Treatment during pregnancy. Hepatology 2000;31:364.

12. Sternlieb I. Wilson´s disease and pregnancy [editorial]. Hepatology 2000;31:531.

13. Brewer GJ, Terry CA, Aisen AM, Hill GM. Worsening of neurological symptoms in patients with Wilson´s disease with initial penicilamina therapy. Arch Neurol 1987;44:490.

sábado, 17 de agosto de 2013

Uma Poema Que Pode Nos Ensinar Muito....

























A Vida me Ensinou 

(Charles Chaplin)


A vida me ensinou...

A dizer adeus às pessoas que amo, sem tirá-las do meu coração;

Sorrir às pessoas que não gostam de mim,

Para mostrá-las que sou diferente do que elas pensam;

Fazer de conta que tudo está bem quando isso não é verdade, para que eu possa acreditar que tudo vai mudar;

Calar-me para ouvir; aprender com meus erros.

Afinal eu posso ser sempre melhor.

A lutar contra as injustiças; sorrir quando o que mais desejo é gritar todas as minhas dores para o mundo.

A ser forte quando os que amo estão com problemas;

Ser carinhoso com todos que precisam do meu carinho;

Ouvir a todos que só precisam desabafar;

Amar aos que me machucam ou querem fazer de mim depósito de suas frustrações e desafetos;

Perdoar incondicionalmente, pois já precisei desse perdão;

Amar incondicionalmente, pois também preciso desse amor;

A alegrar a quem precisa;

A pedir perdão;

A sonhar acordado;

A acordar para a realidade (sempre que fosse necessário);

A aproveitar cada instante de felicidade;

A chorar de saudade sem vergonha de demonstrar;

Me ensinou a ter olhos para "ver e ouvir estrelas",

embora nem sempre consiga entendê-las;

A ver o encanto do pôr-do-sol;

A sentir a dor do adeus e do que se acaba, sempre lutando para preservar tudo o que é importante para a felicidade do meu ser;

A abrir minhas janelas para o amor;

A não temer o futuro;

Me ensinou e está me ensinando a aproveitar o presente,
como um presente que da vida recebi, e usá-lo como um diamante que eu mesmo tenha que lapidar, lhe dando forma da maneira que eu escolher.


COBRE = METAL PESADO = HEAVY METAL

Amigos, criei esta poesia no auge dos efeitos psicológicos da Doença de 
Wilson. O nome refere-se ao COBRE que é um metal pesado.


HEAVY METAL
Autor: Hiran Barreto


Meus sentimentos estão tão confusos,

Num mesmo dia vou da euforia à angústia,

Numa “montanha russa” de emoções.


Sinto a boca seca,

Falta-me o apetite,

Minhas forças se esvaem...

É tão difícil me concentrar em algo.

Minha mente não tem descanso...

É uma época difícil quando não se tem controle sobre o que se sente...

Até quando ficarei assim,

Preso em minha própria mente,

Enquanto um metal pesado corre em minhas veias,

Levando consigo as chaves da minha liberdade?











sexta-feira, 16 de agosto de 2013




AMIGOS DO BLOG DOENÇA DE WILSON, me chamo Hiran Braga Barreto, fui convidado pela querida Vaneide Freitas para ser um dos colaboradores deste blog, tenho quarenta e um anos, nasci em Brasília no dia oito de fevereiro de 1972, mas moro no Rio de Janeiro desde os meus dois anos de idade.  Portanto, carioca de coração, sotaque e costumes, rs. Sou casado há vinte e um anos com meu primeiro e grande amor, minha primeira e única namorada, Rosana Gonçalves Barreto. Tenho duas filhas lindas, a Jéssica de dezessete anos e a Thaís de catorze. Sou Chefe de Departamento Pessoal numa empresa de Construção Civil, aqui no Rio de Janeiro. Estou licenciado pelo INSS desde outubro de 2012. Motivo? Sou portador da Doença de Wilson e desde esta data me vi numa luta contra tantas enfermidades até que por fim em quinze de março de 2013, fui diagnosticado com essa doença.

Quero neste primeiro post compartilhar com vocês o caminho que percorri até este diagnóstico. Creio que nós, com nossos testemunhos, poderemos ajudar a muitas pessoas que sem saber, são como nós,  portadores da Doença de Wilson.

Tudo começou com uma operação até certo ponto simples, retirada de vesícula feita em agosto de 2012. A recuperação deveria ser simples, quinze dias de pós-operatório, depois vida normal, com ajuste na dieta até uma média de seis meses e pronto. Ocorre que comigo não foi assim, desde que operei, mesmo obedecendo religiosamente à dieta prescrita pelo médico, eu não me recuperava, emagreci dez quilos. Tudo que eu comia não parava no estômago, aguentei até o dia primeiro de outubro de 2012. 

Neste dia estava tão mal que procurei a emergência do Hospital Pasteur, no Méier. Exames feitos, surpresa da médica que me atendeu: Funções hepáticas todas elevadíssimas. Ela ficou sem saber o que fazer e pediu para que eu procurasse um Gastro, e foi o que fiz. Fui ao Doutor João Autran Nebel, Gastro que já me acompanhava há algum tempo. Primeira suspeita, algum tipo de Hepatite. Fiz exames para todos os tipos, além de vários outros exames, incluindo dosagem de Ceruloplasmina e USG Abdominal total. Os resultados para as Hepatites e demais exames vieram normais, menos as Funções Hepáticas, ainda elevadas, mas menores do que os valores apontados na emergência à qual tinha ido, dosagem de Ceruloplasmina em treze e resultado da USG de Abdome: "Fígado aumentado de volume, textura heterogênea, hiperecogênica apresentando esteatose".

Tenho uma característica, sou um pesquisador nato. Desde criança tenho esta característica, na escola era "rato" de biblioteca, quando minha mãe me deu um aquário, comprei um livro sobre aquarismo e por aí vai... Não poderia ser diferente com estes resultados que recebi. A Primeira coisa que pesquisei foi, o que significa dosagem de Ceruloplasmina baixa? Fui no "Doutor Google", resposta: Doença de Wilson. Entrei no primeiro link que apareceu, comecei a ler sobre a doença e me identifiquei em vários sintomas, inclusive os hepáticos. Sabedor disso, voltei ao meu Gastro. Ele viu os exames, viu a dosagem de Ceruloplasmina baixa e disse que eu havia operado a vesícula recentemente, então meus exames de sangue poderiam apresentar resultados que não correspondiam à realidade. Continuaríamos na investigação do por que de eu não estar me adaptando sem a vesícula e que depois de três meses nós repetiríamos o exame da Ceruloplasmina.

Enquanto esse tempo passava eu me afundava na depressão, fui ficando cada vez mais deprimido à ponto de não conseguir ir na padaria, na esquina da minha casa! Ciente do meu estado psicológico, procurei no plano de saúde que tenho, um Psicólogo. Não encontrei nenhum, todos com agenda lotada, vagas só em janeiro de 2013 e mesmo assim ligando em Janeiro, não poderia deixar agendado antes...

O gastro enfim chegou ao seu diagnóstico sobre o meu problema com a retirada da vesícula: Como eu já tinha SII (Síndrome do Intestino Irritável) e Intolerância à lactose e pelos sintomas que eu estava apresentando, eu estava com Síndrome Pós-Colecistectomia (retirada da vesícula)...

Passaram-se os três meses, chegamos a Janeiro de 2013. Primeira coisa que fiz, mais afundado em depressão que eu estava, foi voltar a ligar pro plano de saúde. Resposta, vagas só em março!!! Graças a Deus uma amiga minha, a Cida, que havia se formado em 2012 em Psicologia e precisava cursar mais um ano para poder clinicar, me perguntou se eu me importava em ser seu paciente na faculdade em que ela estudava. Disse que não e que estava até agradecido por alguém poder cuidar do meu lado psicológico. Ela também em indicou um ótimo Psiquiatra, o Doutor Marcello Rocha Miranda de Carvalho. Bom, diagnóstico dos dois: "Depressão, Síndrome do Pânico e Agorafobia". Comecei a tomar antidepressivos. A data de voltar ao Gastro chegou. Ele pediu alguns exames de sangue e refez o pedido de dosagem de Ceruloplasmina. Resultado Funções Hepáticas ainda alteradas e dosagem de Ceruloplasmina em seis. Ele disse que o exame deveria estar errado, pois com a minha idade se eu tivesse doença de Wilson, já era para eu estar com cirrose e que eu não apresentava os anéis de Kayser-Fleicher nos olhos... Não discuti. Fui procurar um especialista em doenças Hepáticas. 

Antes pesquisei mais ainda sobre a doença de Wilson. Vi que além do comprometimento hepático, tinha os problemas psicológicos e outros sintomas... Vi que o médico especializado em doenças hepáticas era um HEPATOLOGISTA. Fui no site do meu plano de saúde e procurei um... Nenhum amigo conhecia algum para me indicar. Então fui à caça de um com o seguinte medidor de capacidade. Como li tudo sobre a doença de Wilson, sabia bastante coisa inclusive os exames que se faziam para diagnosticá-la. Me propus o seguinte: Se ao chegar no Hepatologista e ele mesmo diante de dois exames de sangue com Ceruloplasmina baixa, USG com problemas no fígado e apresentando problemas psicológicos, ele nem citasse a possibilidade de Doença de Wilson, o ouviria, sairia de seu consultório e procuraria outro, até que achasse um que levantasse esta possibilidade e passasse os exames para pesquisar a existência da Doença de Wilson...

Bom, achei uma médica em Ipanema, a Doutora Zulane Veiga, do Centro de GastroHepatologia. Ela viu meus exames, a USG, e... Me disse: O senhor já ouviu falar em Doença de Wilson? pensei: Bingo! Ela me explicou o que era, muito atenciosa, me passou dosagem de cobre total no sangue, de cobre urinário 24/h e RM do Abdome e Pelve, além de exame das funções hepáticas. Resultado: Urina 24/h normal, cobre total: 109,3 μg/dl, funções hepáticas ainda alteradas e RM de Abdome com o seguinte laudo: "Esteatose hepática de distribuição heterogênea. Destaca-se imagem nodular com presença de maior quantidade de gordura na projeção do segmento VIII. Esteatose focal? Recomendamos controle evolutivo por imagem". Já sabia calcular o cobre livre que é: Cobre livre = Cobre total - (ceruloplasmina em mg/dl x 3,15). Se o resultado fosse maior que 25 μg/dl, somado a dosagem de Ceruloplasmina baixa, a pessoa era considerada portadora da Doença de Wilson. Eu já sabia o meu diagnóstico, só ainda não sabia se a doutora saberia... Lá fui eu com meu "método de controle de competência médica" para o consultório da Hepatologista... Ela disse que eu estava incluído em dois critérios clínicos da Doença de Wilson e me mandou fazer o exame com lâmpada de fenda para ver seu possuía os anéis de Kayser-Fleicher nos olhos, eu argumentei o que o Gastro havia falado. Ela disse que nem sempre é visível à olho nu, apesar de eu ter olhos claros, o que facilitaria um diagnóstico à olho nu... Além de uma TC de crânio... Fiz os exames e deram negativos. O que eu particularmente já sabia, pois os referidos anéis estão presentes em acometimentos cerebrais (degeneração), como minha TC de crânio deu normal... Não era de se esperar que eu possuísse o anel, e ainda bem, senão o Smigol iria querer me matar, rs... (essa piadinha é para quem já viu ou leu "O Senhor dos Anéis")...

Quando voltei com estes exames à Hepatologista, ela disse que já era esperado isso, mas o fez para desencargo de consciência. E mais, ela havia se reunido com a junta médica do Centro GastroHepatológico e todos inclusive o diretor, haviam me diagnosticado como portador da Doença de Wilson com acometimento hepático e psicológico. Minha reação? Alívio por enfim ter tido uma resposta à essa minha rotina de exames e se confirmado o que eu já sabia. Mas triste por também saber o que me esperava... Quando encontrei minha esposa na sala do consultório me esperando, quando disse o diagnóstico, engoli o choro... Não queria preocupá-la, pois meu sogro havia falecido de um câncer "Linfoma Não-Hodgkin" há menos de um ano...

Fui ao meu psiquiatra e contei o diagnóstico e descobrimos o por que de nenhum antidepressivo estar funcionando comigo, funcionava 15 dias e depois era como se eu não estivesse tomando nada. Ele ligou meu problemas psicológicos à Doença de Wilson, minha psicóloga também, e mudamos nossa linha de tratamento.

Agora o desafio era conseguir o CUPRIMINE 250 mg de forma gratuita pela farmácia do governo do estado do RJ, a RioFarmes, e toma papelada para preencher... Burocracia necessária, entendo... Bateu uma ansiedade, um medo de ser recusado, de cair em exigência, de não concordarem com o diagnóstico. Para minha surpresa em 15 dias eles me ligaram, e pediram para eu comparecer à RioFarmes. Fui tenso, pois por telefone eles não me informaram se o resultado foi positivo ou negativo. Graças a Deus foi positivo! Consegui o CUPRIMINE 250 mg custeado pelo governo do estado do RJ. Por sinal é um órgão estadual que funciona e bem. Por mais cheio que esteja, você comparece em dia e hora marcados e não demora mais do que meia hora para ser atendido e sair. Enfim comecei meu tratamento para a Doença de Wilson.

Minha hepatologista me disse que ele demorava uns três meses para fazer efeito. Fui percebendo que há algum tempo, antes mesmo de operar a vesícula eu já vinha presentando um leve tremor nas pernas, com o passar do tempo e agora com a manifestação da Doença de Wilson, isso aumentou. Passei a descer escadas com as pernas trêmulas, as mãos também ficaram trêmulas para movimentos finos, como digitar num celular ou pegar uma caixa de remédios, por exemplo. A parte psicológica não se ajustou, passei a apresentar mudanças de humor enormes num mesmo dia. Ia da Euforia à depressão num piscar de olhos e no mesmo dia, sem falar da insônia, mesmo tomando antidepressivos. Pensei várias vezes em tirar minha vida. Não o fiz pois olhava para minhas filhas, minha esposa, minha mãe, minhas irmãs, sobrinhos e sobrinhas, meus amigos... E não achava justo deixar este legado para eles. Mas acima de tudo minha fé em Cristo, mesmo nestes momentos de angústia, me segurou firme na rocha...

Neste meio tempo minha esposa começou um tratamento com uma psicóloga, pois eu a orientei, ela havia perdido o pai de forma sofrida e agora eu estava neste estado... Ela foi e gostou muito. Me pediu para eu ir conhecê-la... E fui. Então passei a me consultar com duas psicólogas, agora também, a Dra. Karla Malheiros. As duas muito boas.

Meu tratamento com o CUPRIMINE 250 mg seguiu... Comecei a fazer exames de sangue regulares a princípio quinzenalmente, depois mensalmente. Comecei com um comprimido de 250 mg, pois minha Hepatologista disse que seria cautelosa para eu não apresentar nenhum efeito colateral indesejado e ter que parar com o medicamento que é o padrão ouro do tratamento. Logo passei a dois comprimidos e cheguei a três. Neste período somente uma vez minhas funções hepáticas regularizaram, mas hoje ainda estão levemente aumentadas, depois de dois meses consegui expelir o cobre pela urina e o cobre livre baixou um pouco... Mas Minha CPK e meu Perfil Lipídico estão aumentados. Além da minha Dosagem de Creatinina estar no limite e de ureia bem próximo a isso. De uns tempos pra cá, também bem antes de eu ser diagnosticado com a Doença de Wilson, venho tendo dores nos ossos, e na coluna. Já tinha até duas hérnias na cervical. Depois do diagnóstico da Doença de Wilson as coisas pioraram, procurei um reumatologista, o Dr. Antonio Luiz Lima Carrilho, que me examinou e passou alguns exames para confirmar sua suspeita... Meu fator reumatoide deu positivo, compatível com o que ele já achava, artrite. Além de radiculopatia nos membros inferiores causados por quatro hérnias lombares e três vértebras dorsais degeneradas. No joelho degeneração do menisco e artrose. Ele disse que a degeneração da coluna também é por conta da artrose. Tudo isso, segundo ele, com relação de causa e efeito da Doença de Wilson. Segundo ele meus ossos estão como se tivesse entrando na terceira idade.

Com o passar do tempo e uso do CUPRIMINE 250 mg somado ao uso de antidepressivos, fui dando uma estabilizada na parte psicológica, entenda-se isso como: Já consigo sair de casa, porém sem comer, criei uma muleta mental... também comecei a me estabilizar no seguinte, uma semana estava em depressão, desanimado, querendo morrer... Na outra estava eufórico, parecia que tudo tinha acabado, que não passava de um pesadelo... E fiquei nessa gangorra. As duas psicólogas começaram a suspeitar de um diagnóstico... Falei com o psiquiatra que a princípio disse que poderia ser por causa do antidepressivo, mudou mais uma vez... Só que a gangorra não parava... Até que um dia, cheguei eufórico na Dra. Karla e ela disse: "Hiran, hoje você está radiante, você diria que está com depressão?", fui sincero e disse que não. Ao que ela respondeu: "Mas você está! Sugiro que você procure o seu psiquiatra e diga isso que ocorreu aqui e levante aquela suspeita..." Foi o que fiz. Ele concordou com ela ou com elas dessa vez e me propôs um teste, aumentou a dose do antidepressivo que estava tomando e disse que se eu tivesse algum "surto" de euforia ou de depressão, estaria confirmada a suspeita, mas que imediatamente ligasse para ele...

Dez dias depois deste teste, numa sexta-feira, tive um "surto" de destemor. Mesmo com a tremedeira no meu corpo, subi no telhado da minha casa para ver um problema na caixa d'água, mexi na fiação elétrica do chuveiro que não estava funcionando, peguei a bicicleta (que não estava mais usando) e sai de casa, em todo tempo pensando: "Se cair do telho, o que que tem? Se tomar um choque e morrer, o que que tem? Se eu agora bater de frente com um ônibus, quem além da minha família sentiria minha falta?" Passei em todos os cruzamentos até a casa de ferragens que fui sem olhar se vinha carro... A noite tomei oito comprimidos de Rivotril de 0,25 e não consegui dormir... Foi quando me toquei: "Estou surtando!" Procurei o psiquiatra ele me atendeu em seu consultório, tive uma conversa ampla com ele, contei toda minha vida, da infância à fase adulta. Disse-lhe que tive quatro episódios de depressão profunda num ciclo, aproximadamente, de dez em dez anos, e quando não estava deprimido, sempre fui uma pessoa elétrica, bem humorada, piadista... Mas deprimido era o oposto total, e que comigo tudo era muito "oito ou oitenta" não havia meio-termo. Ele olho para mim e disse: "Já tenho um diagnóstico para você: Bipolaridade, provavelmente em razão de causa e efeito com a Doença de Wilson". Ele disse que meu organismo vem acumulando cobre desde meu nascimento e isso vem afetando meu lado psicológico há anos e agora com a manifestação da Doença de Wilson, isso se manifestou de forma intensa, assim como os outros problemas de saúde que venho tendo. Passei a tomar medicação "do momento", segundo ele, para o tratamento da bipolaridade.

Até então não havia contado para minha família a gravidade da Doença de Wilson e agora tinha que informá-los da Bipolaridade... Como fazer? Convoquei uma reunião de família. Eu, minha esposa e filhas. Comecei falando do diagnóstico da bipolaridade. Fui no Youtube e mostrei a elas um documentário muito bom sobre o tema. Depois falei sobre a seriedade da Doença de Wilson. Foi um momento muito íntimo. Muito forte e para minha surpresa elas não desabaram... Mas me abraçaram e me apoiaram... Um peso de uma tonelada saiu das minhas costas. Hoje me sinto mais forte.

Antes do diagnóstico da Bipolaridade, no dia anterior tinha ido à RioFarmes e recebido a notícia da falta do CUMPRIMINE 250 mg. Havia ficado muito preocupado, pois eu costumo dizer: "Todos nascemos com uma certeza na vida: Vamos morrer um dia, ninguém fica pra semente! Mas os portadores de doenças raras passam a ter prazo de validade. Estamos muito bem, até que não consigamos o medicamento para nosso tratamento..." Somando-se a isso o diagnóstico da Bipolaridade, estava, embora mais leve, mais forte por causa da verdade dita em família e a reação dela. Mas estava muito tenso por dentro... Foi quando nasceu um impulso criativo. 

Tenho feito parte de um grupo no Facebook desde que me descobri portador da Doença de Wilson. O "Doença de Wilson & Amigos Solidários", que a maioria de vocês devem conhecer, acompanhei vários casos de falta de medicamentos, pedidos de envio de quem tivesse algum sobrando. E pelo menos um caso de morte... Pensei: "Vou criar uma campanha para conscientizar as pessoas sobre as condições que os portadores da Doença de Wilson se encontram nesse país". Comecei essa campanha numa quinta-feira, pedindo ajuda, se alguém tinha algum contato com jornalistas, políticos, celebridades... Onde eu pudesse contar o que estamos passando e a falta de medicamentos. Que não precisamos de um só medicamento, e nem de um só médico... Do caso dos portadores do Sul, Norte, Nordeste e Interiores, que quase nunca conseguem o CUPRIMINE 250 mg, quanto mais acompanhamento médico... Pedindo que o Governo Federal tomasse a responsabilidade pelo fornecimento de tratamento e medicamentos para os portadores de doenças raras e que também criasse um Centro Nacional de Tratamento aos Portadores de Doenças Raras, nos moldes do que é o INCA hoje para os portadores de câncer...

Para minha surpresa, já na sexta-feira, havíamos tido quase dois mil compartilhamentos. Consegui contatos com pessoas na Argentina, Alemanha, EUA, e de alguns estados do Brasil... Incrível! Dentre estes contatos, a vice presidente da associação Argentina de portadores de doenças raras, que me deu várias dicas de onde importar o remédio. Com um médico alemão, que para minha sorte falava espanhol, e se prontificou em providenciar o envio do CUPRIMINE. De ONGs e pessoas que se ofereceram para se cotizar e comprar os remédios para quem tem urgência em tê-los e mais ainda, na quarta-feira passada (14), menos de uma semana de campanha, conseguimos gravar uma
matéria com a Rede Globo de Televisão, que será passada no BOM DIA RIO. Mas eu tive uma conversa de cerca de uma hora com o diretor de jornalismo da Globo que falou que nosso caso tem grande potencial para se fazer uma matéria a nível nacional!

Tenho um sonho em meu coração. Lançar um livro com as histórias de vários portadores da Doença de Wilson. Uma estória por capítulo. Seria um livro agridoce. Com capítulos alegres, capítulos tristes, estórias de superação e de derrota... Contei isso para o diretor de jornalismo da Globo ele me deu a maior força e falei se ele quisesse participar deste projeto, que já estava convidado. Também falei: "Só tenho um pedido a fazer, não quero nenhum centavo com a vendagem dos livros. Quero reverter tudo para criação de um centro de tratamento de portadores de doenças raras!" Esse é o meu sonho!

Ainda estou em contato para gravar um vídeo com um comediante muito famoso na internet e na TV à cabo, sobre a Doença de Wilson e as nossas dificuldades... É uma possibilidade real!

Amigos, estamos juntos nesta luta. Sei que foi um texto longo, mas quis contar minha estória para que alguém, quem sabe, um dia possa se beneficiar com ela. Quem sabe alguém, como eu um dia eu fiz, leia na internet esse relato e passe a se suspeitar portador da Doença de Wilson? E assim consiga se salvar...

Nossa luta apenas começou. Sei que Deus está conosco, e ainda vamos mudar muita coisa nessa nossa luta contra a doença de Wilson e juntos faremos a toda a diferença!

Um grande abraço em todos!

E FORÇA SEMPRE!


Hiran Braga Barreto.